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“Pobre, Fusca e Brisa”

Lembro-me, como se fosse ontem, minha primeira conversa com meu pai espiritual (Pe. Ernani), em que contava-lhe sobre minha curta experiência em uma linda comunidade que cuida de “irmãos de rua”, mendigos. Ele me disse, então, que um dia eu me depararia com o mendigo mais miserável que eu jamais imaginara e que deveria abraçá-lo (com amor), e esse mendigo seria eu.

Outra lembrança indelével é que, numa das minhas primeiras confissões, já como monge, mas que considero a segunda “boa confissão” da minha vida, um padre que apareceu na minha cidade, vindo lá do Vaticano visitar sua família, minha conterrânea, me disse assim: “Você tem um motor de Ferrari dentro de uma carcaça de Fusca”.

Que engraçado, eu adoro Fusca. Já andei em dezenas deles, enquanto que nunca sequer vi uma Ferrari de perto. Se vi, não me lembro. Ao passo que tenho na lembrança vários Fusquinhas simpáticos que vi pelo mundo e que fazem parte da minha história. Muitos deles tinham até nome.

Por que perdi tanto tempo tentando ser Ferrari? Tá, eu tenho carcaça de Fusca, já havia entendido. Mas só agora estou me dando conta de que o que eu realmente quero ser é um Fusca.

Fusca marca a vida das pessoas. Ferrari pode até marcar a vida de alguns poucos por aí, mas eu nunca conheci ninguém que tivesse uma Ferrari e nem que tenha ao menos andado numa. Quanto aos Fuscas, me vêm à memória parentes, amigos e conhecidos, pessoas reais, como eu, que trazem um Fusca na história. Tem o Fusquinha azul-piscina do Sânzio, o Fusca Pink da Paulina, com uma Hello Kitty no vidro traseiro, o Amendoim da Marina, em que fazíamos muito “barulho” pela cidade, o Fusca vermelho do Tampinha, que tem até placa preta, ou seja, edição de colecionador. Melhor que ter na memória os Fuscas é guardar no coração os donos. Uma vez peguei carona num Fusca branco, com os vidros bem escuros, e dentro do carro, no chão, tinha uma luz neon azul. Foi uma experiência surreal.

Com os mendigos é a mesma coisa. Nunca uma pessoa me impressionou pela sua riqueza, seus “bons modos”, seu status na sociedade ou coisa parecida, enfim, por sua carcaça de Ferrari. Eu até vejo, admiro, acho elegante, mas logo esqueço. É que eu aprendi a olhar mais de perto, e de perto ninguém é uma pura Ferrari. Pelo menos eu nunca vi. Mas tenho na memória muitos, muitos pobres e fracos que já encontrei pela vida, com quem já convivi, já amei e fui amado por eles e os reconheço como meus iguais. É o que mais vejo na vida. E tenho cravado na memória, lá onde a lembrança é mais profunda, a imagem de alguns mendigos bem especiais. Seus olhares e algumas poucas palavras estão impressos em minha alma. Inclusive alguns por quem não fiz nada porque não pude, e um por quem não fiz nada simplesmente porque não quis. Este é de quem eu mais me lembro. Ele morreu.

Mas a profecia se cumpriu. Eu realmente vi que o mais miserável sou eu. É um mistério em minha vida, mas eu sempre vejo isso. Deus sempre me leva a um degrau abaixo. Sempre que me deparo com algum mendigo, Deus me fala alguma coisa a meu respeito. Parece lindo no papel, mas na carne é outra história.

O último que me marcou não tinha os dois braços. Já imaginou um homem sem os dois braços morando na rua? Imagina o nível de dependência de tal homem. Se eu lhe estendesse uma nota de cem pela janela do carro, ele não teria como pegar, a não ser com a boca. Ele depende de outros moradores de rua, mendigos como ele, para comer, para se trocar, se lavar quando dá, e, se cair, pois deve cair, provavelmente vai de cara ao chão e se esfola todo. Sempre precisa da caridade de alguém para se levantar. Ora, e eu também não dependo da caridade de meus irmãos para me levantar, para viver? Mesmo que sejam tão pobres como eu. O que importa é que, quando não tenho braços, Deus estende os Seus a mim através de braços reais de pessoas reais. E, fiquei pensando que, se Deus me deu braços, devo estendê-lo sempre a quem precisa, pois há muitos que precisam. E também usá-los mais para abraçar, pois quem não gosta de um abraço? Posso ser o abraço real de Deus para as pessoas reais da minha vida.

Bom, já abracei meu pobre mendigo, que sou eu. E abracei com amor. Eu consegui. Mas não dá só para abraçar, dar um prato de comida, uma muda de roupa e mandar embora de volta para a rua. O mendigo não tem casa. Ele precisa de um LAR. É assim que o amor faz. Eu preciso aprender a dar um lar ao pobre que sou eu, com todas as minhas misérias, para só então saber como dar ou ser um lar aos outros pobres. Isso é o amor. O pobre tem que ficar. Deus quer dar-lhe um lar. “Sacia de bens os famintos e despede os ricos sem nada” (Lc 1,53).

O Fusquinha precisa andar. O motor da Ferrari tem que parar de roncar. A carcaça não dá conta, é o motor que tem que diminuir, desacelerar, reduzir a marcha, andar devagarinho, como o Fusca aguenta. Fusca chega em qualquer lugar. Devagar, mas chega! Tenho certeza de que uma Ferrari nunca chegaria a lugares incríveis que um Fusquinha já me levou. O Fusca chega em qualquer buraco. E se a estrada for boa, então, ele agradece e anda melhor ainda, mas no seu ritmo.

Um furacão se forma devido a altas temperaturas das águas dos oceanos. É um fenômeno da natureza incrível. É necessário para distribuir calor às áreas polares do planeta, onde tudo é frio e congelado. Às vezes o furacão chega à costa do continente ou de alguma ilha e arrasa tudo. Mas apesar de sua força destruidora, os furacões são necessários, misteriosamente necessários, como a Cruz de Cristo. Furacões são formados o tempo todo nos oceanos, mas eles perdem a força quando a temperatura abaixa, desfazendo-se antes de chegar à terra. Talvez aquela brisa suave que nos tocou naquele dia quente no litoral tenha vindo de algum furacão que se acalmou pelo caminho.



Uma vez, num lugar longe daqui, vi de perto o resultado de um furacão que havia passado por ali há muito tempo. A paisagem era uma belíssima praia numa ilha. Havia ali, entre as construções modernas pós-tragédia, uma pequena casa em ruínas, cheia de areia pela “cintura”. O furacão havia acabado com tudo por ali. Eles mantiveram aquela casa como uma lembrança, uma memória do que aconteceu. Aquela tragédia faz parte da história daquele lugar.

Como é importante ter história. Como é importante ter memória. Não devemos apagar nada da nossa história. A história nos relembra por onde passamos, o caminho percorrido até aqui, até o presente. A história nos diz quem somos, o que já nos aconteceu, o que já fizemos na vida, o que já nos fizeram. Quantas coisas eu já quis apagar da minha história!

Por que eles quiseram deixar aquela casa como uma lembrança de algo tão terrível? Simplesmente para relembrar a dor? Claro que não. Mas como uma forma de relembrar a superação. Apesar de toda dor, das perdas, de tanta destruição, de tantas mortes, de tanto sofrimento, aquele povo se reergueu e reconstruiu a vida. Eles continuaram. E não é assim conosco? Apesar dos furacões que passam pela nossa vida e arrasam com tudo, devemos nos reerguer, recomeçar e reconstruir, apesar de todas as dores e todas as perdas. Continuar, mas nunca esquecer. Não para ficar sofrendo morbidamente, mas para relembrarmos que fomos capazes de seguir em frente. Fomos mais fortes que os furacões. Podemos dizer: “Meu Deus, eu ainda estou de pé!”.

E há os furacões que surgem dentro de nós. São formados no vasto oceano de nossas emoções. Às vezes o furacão, da mesma forma que chega à costa e arrasa tudo, sai de nós e chega no outro, chega na vida, na nossa e na de quem está ao nosso redor. Quantos furacões saídos de nós já causaram estragos por aí? Quantos furacões de outros já causaram danos a nossa vida? É tão difícil e doloroso reparar. Há coisas que nem têm reparação. Nós, ou o outro, temos que simplesmente superar, pedindo perdão ou perdoando.

Devemos cuidar do oceano de nossas emoções, visto que os furacões são formados das altas temperaturas dessas águas. Cuidar das emoções para que elas não fervilhem. E se um furacão for inevitável, pelo menos tentar esfriar as coisas antes que ele atinja a terra, a nossa ou a dos outros.

Penso que assim como a Ferrari tem que aprender a ser Fusca, o furacão tem que aprender a ser brisa. Diminuir a força. Nunca parar de soprar. Ventar forte quando necessário, mas sem vendavais ou tempestades. Não precisa. É só soprar junto com a vida. Assim como é só a Ferrari rodar com as marchas do Fusca. Dá pra aprender!



E o pobre? E o mendigo? Então, ele está aqui. Ele sou eu. Eu tenho que diminuir meu orgulho para aprender a conviver com ele. Ele não vai dar mais do que pode, simplesmente porque não pode. Eu não vou ser mais do que sou, simplesmente porque eu só sou o que sou. As exigências do meu ser idealizado, sempre forte e perfeito, vão ter que descer. Eu vou ter que aprender a ser esse pobre, que é frágil, que depende, que precisa, que não tem tudo, que não sabe tudo, que não pode tudo, e que, muitas vezes, chega a ser importuno, inconveniente e até “sem modos”. O que não posso fazer é mandá-lo embora de novo. Eu devo ser o meu próprio lar.

O que tem a ver o furacão com o pobre e o Fusca? Nada! Mas a brisa tem. Imagina esse pobre, em seu Fusquinha num dia ensolarado em que sopra uma leve brisa. Precisa de mais? Agora, imagina um rico, poderoso, em sua linda e possante Ferrari no meio de um furacão…

Há um trecho do Evangelho que Jesus diz mais ou menos o seguinte: “Eu vos bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, pois ocultastes estas coisas dos sábios e entendidos, dos ricos e poderosos, das Ferraris e dos furacões, e as quisestes revelar aos pequenos e humildes, aos pobres, aos Fuscas e às brisas” (Mt 11,25). Portanto, se eu quero ter a alegria de viver mais próximo de Deus, partilhando Seus segredos, Sua amizade, Sua companhia e a companhia dos que Ele escolheu para revelar o Seu amor, tenho que aprender a ser “pobre, Fusca e brisa”. Tudo combina!



Ir. José Renato, MT.

13 de junho de 2017 | Artigos | 1
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One Response to “Pobre, Fusca e Brisa”

  1. mongesdatrindade disse:

    asfsdf

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