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Os monges e a comunidade cristã nascida em Pentecostes

 

 

 

 

 

Introdução

 

No dia 8 de dezembro de 1945 um jovem universitário de 19 anos, a convite de amigos, teve a oportunidade de passar um dia no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Encontrou sua vocação.

Terminado o curso, um ano depois, foi recebido como postulante. Aos poucos, porém, foi percebendo que a realidade não correspondia à sua aspiração, nem ao que conhecera pela literatura monástica. O pequeno livro sobre O ideal monástico e a vida cristã dos primeiros dias o confirmava. Nas vésperas da profissão solene não foi recebido. O abade o encaminhou para os dominicanos, que determinaram sua carreira de teólogo.

Dezoito anos mais tarde, voltou ao estado leigo, tendo enfrentado um período difícil, até encontrar a mulher que é sua esposa, há mais de trinta anos, vivendo desde então como os cristãos dos primeiros dias.

Hoje, aos 91 anos, tem a alegria de ver que Deus o conduziu por caminhos inesperados, à realização de sua vocação, não só como cristão, mas também como teólogo, na comunhão com uma comunidade que ajudou a criar e que vive essa mesma vocação, bela e real, no Mosteiro da Trindade.

Gostaria de partilhar com vocês um pouco dessa alegria apresentando o bendito livrinho sobre O ideal monástico e a vida cristã dos primeiros dias.

 

 

O monaquismo no hoje da História

 

 

Não é fácil, na Igreja, dada a variedade das associações de fiéis, de congregações e de ordens religiosas, compreender o sentido e o perfil da vocação monástica, sobretudo quando se apresenta como novidade, entre as inúmeras e diversíssimas formas de seguimento de Jesus, na unidade do Espírito.

Quem somos nós para enfrentar essa questão?

Não o ousaríamos se, por um lado, não estivéssemos convencidos de que a diversidade do Espírito é inerente ao mistério cristão, isto é, ao mistério da salvação na sua unidade, muito além das estruturas canônicas, segundo reza, aliás, o último cânon do Código de Direito Canônico e, por outro lado, a própria história bimilenar do cristianismo confirma a presença desse mesmo Espírito.

Os cristãos sempre viveram associados em comunidades. Jesus assegurou sua presença junto a nós até o fim dos séculos, através da comunidade formada pelos que O seguiam mais de perto, os apóstolos, que, a conselho do Mestre, tudo deixaram para segui-lo, a família, trabalho e bens.

Foram os mesmos apóstolos que, testemunhando a ressurreição, suscitaram e organizaram as primeiras comunidades de vida, “comunidades apostólicas”, tal como eram denominadas então, até, pelo menos, o século XII. Foi então que começaram a se diversificar, segundo o papel que desempenhavam na sociedade cristã em formação, consolidando-se desde o século VI, pelos votos religiosos, nos mosteiros que até hoje conhecemos, que seguem a Regra de São Bento.

Contudo, a sociedade cristã rompeu-se no século XVI, com o advento da modernidade e passou por um longo período de progressiva secularização, chegando a cancelar a vida religiosa e ameaçando a própria Igreja, no final do século XVIII.

No século XIX fez-se, entre os cristãos, um gigantesco esforço de “restauração” da cristandade, suscitando, na Igreja, uma volta ao passado e dando origem ao movimento de atualização (aggiornamento) adotado, já no século XX, pelo Concílio Vaticano II, que acolheu a realidade da sociedade secularizada e retomou a perspectiva apostólica da Igreja dos primeiros dias, Igreja “em saída”, no atual pontificado.

 

 

O monaquismo na Igreja

 

 

Para compreender o lugar e perfil dos monges na comunidade cristã, talvez o melhor caminho seja acompanhá-los na história, desde a primeira comunidade cristã suscitada no dia de Pentecostes, pelo primeiro anúncio público (querigma) da Ressurreição, até nossos dias. Há uma inegável continuidade no Espírito, entre a comunidade cristã dos primeiros dias e o monaquismo em nossos dias, foi o que mostrou há mais de um século um jovem monge de um mosteiro belga, recém fundado (1872).

Refiro-me a Dom Germain Morin (1861-1946). Nascido em Caen, na Normandia (França), professou na Abadia de Maredsous (Bélgica) em 1882. Desde cedo, amante das letras e incansável pesquisador da antiguidade cristã, foi convidado, ainda jovem, a pregar o retiro anual da comunidade. Intuiu então um os aspectos mais profundos do monaquismo. Suas reflexões, publicadas vinte anos mais tarde (1912) marcaram profundamente os mosteiros, inclusive no Brasil, e foram traduzidas para o português, sob o título O ideal monástico e a vida cristã dos primeiros dias.

A obra de Dom Germain Morin, dificilmente encontrável em nossos dias, é um dos mais frutuosos meios para entendermos o alcance da vida monástica na Igreja, por isso vamos apresentando-as brevemente neste blog.

Consistem basicamente na percepção do alcance da terminologia adotada por Lucas, para descrever a vida da comunidade cristã nas duas conhecidas passagens dos Atos (2,24-37 e 4,24-37), que marcaram toda a espiritualidade cristã dos seis primeiros séculos, resumida na Regra Monástica de são Bento.

 

 

 

a) A gênese da comunidade cristã

 

 

 

 

Nos Atos dos Apóstolos, a primeira comunidade cristã nasce publicamente em Pentecostes. Manifestando-se como forte ventania, o Espírito de Deus ilumina cada um dos presentes, com línguas de fogo, que impressionam a multidão, dando a Pedro lucidez e coragem de anunciar a ressurreição de Jesus àquela mesma multidão que havia presenciado a sua crucifixão, há cinquenta dias.

Impactados interiormente pelo acontecimento, compungidos, diz Lucas, os ouvintes vindos de todo o mundo conhecido, perguntam a Pedro o que fazer.

 

Pedro, então, aponta três passos fundamentais, que estão na base da vida cristã: convertei-vos, sede batizados e recebereis o dom do Espírito Santo, assim como todos os que, embora estejam longe, ouvem o apelo de Deus!

Ora, mostra Morin com precisão e muitos detalhes, que temos aqui a base do monaquismo: deixar-se impactar espiritualmente pelo alcance decisivo do acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, convertermo-nos e acolhermos o dom do Espírito em nossa vida, que nos leva a ouvir a Deus, realizando a vocação a que é chamada toda a humanidade.

A grande lição, novidade para os nossos dias, é que o monaquismo nada mais é do que a efetiva realização da vocação à santidade a que somos todos chamados, homens e mulheres, no íntimo de nosso coração, como ensina hoje com toda a clareza o Papa Francisco . Não é, portanto, uma vocação excepcional na Igreja, mas o testemunho da alegria e da simplicidade de uma comunidade que, convertida ao Evangelho e animada pelo Espírito, vive de fato, de maneira pública e manifesta, a vida santa, a que todos somos chamados.

 

 

b) As características do monaquismo

 

 

 

Como a Igreja, o monaquismo conheceu e conhecerá, através da história, diversíssimas formas culturais, estilos de vida e missões particulares, mas a sua particularidade é que será sempre caracterizado pela unidade do Espírito (monaquismo vem de monos-uno), cuja manifestação histórica consiste na perenidade das características apontadas por Lucas, nos Atos dos Apóstolos: perseverantes na doutrina dos Apóstolos, reuniam-se em comunidade para a eucaristia e a oração; no temor de Deus, tinham tudo em comum, atendendo à necessidade de cada um.

 

Monges, na Igreja, são cristãos batizados, que procuram manter viva a fé batismal em sua vida concreta, segundo o exemplo dos primeiros discípulos, vivendo acima de tudo e efetivamente em busca de Deus, iluminados e sustentados pela esperança e pelo amor, na certeza de que Deus nos ama. A comunidade monástica (cenobitas) o exprime na liturgia, a começar pela eucaristia, e na vida comum, pondo todos seus recursos em comum, para atender às necessidades de cada um.

 

 

No mundo secularizado, o testemunho de uma comunidade que tem tudo em comum e em que se atendem efetivamente as necessidades de cada um, é particularmente eloquente e exerce, principalmente sobre os jovens, um imenso fascínio, na medida em que contrasta com o individualismo reinante e manifesta a união dos corações, numa vida de alegria e simplicidade, vivida na liberdade .

 

 

 

c) Comunidade missionária: testemunho e serviço.

 

 

 

 

 

Assim como a Igreja de Pentecostes e de todos os tempos, por ser “sacramento da união com Deus e da unidade de toda a humanidade” (LG, 1), é essencialmente missionária, chamada a ser “Igreja em saída”, o monaquismo há de ser sempre missionário, pelo testemunho e pelo serviço, pois a vida cristã nasceu missionária.

Lucas nos mostra de que forma os primeiros discípulos dos apóstolos oravam para que, com todo o desassombro, anunciassem a Palavra e como todos ficaram cheios do Espírito Santo e a anunciaram com intrepidez: Com um só coração e uma só alma, tendo tudo em comum, davam, como os apóstolos, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus.

 

Entre testemunho e serviço há uma íntima conexão: o testemunho dá sentido ao serviço e o integra na vida cristã, pois, sem testemunho, o serviço é simples beneficência, mais própria de uma ONG ou de uma associação beneficente, como gosta de dizer o Papa Francisco.

 

O serviço, por sua vez, indispensável, torna real e efetivo o testemunho, inserindo-o no tecido social, na cultura, como expressão incontornável do amor encarnado de Deus e do nosso amor autêntico, inscrito no tempo e no espaço, por todos, mas especialmente pelos mais próximos e mais necessitados.

Pelo serviço, animados pelo testemunho do Espírito de Jesus, os mosteiros se tornaram, como mostra a história do Ocidente, verdadeiros seminários da cultura cristã.

 

As novas comunidades monásticas são hoje profeticamente chamadas a manifestar o estilo de vida cristã, no mundo secularizado, ainda que, como toda palavra ou realidade profética, nem sempre sejam devidamente compreendidas.

 

 

Nós, os fiéis e os monges, na atualização da Igreja.

 

 

Os Atos dos Apóstolos são o modelo da Igreja de hoje, que, no seguimento de Jesus, sustentada pelo Espírito, garante não só a compreensão exata, no sentido bíblico, do que é a Tradição, mas também anima e fortalece a comunidade cristã.

 

 

Portanto, reconhecer que a vida monástica revive o estilo da vida apostólica, em nossos dias, é reconhecer o compromisso de as nossas comunidades serem testemunhas do seguimento de Jesus, no serviço e no compromisso missionário, em contraste com o mundanismo secularizado que nos ameaça. É preciso sempre lembrar de que tudo é dom. O Papa Francisco nos alerta do risco que todos corremos, de confiar mais em nosso saber pragmático, o gnosticismo, ou no esforço próprio, o pelagianismo.

 

Fiéis e monges devemos viver no espírito que animava as primeiras comunidades, que tinham ainda bem viva a lembrança das palavras de Jesus, convencidos de que a autêntica renovação da Igreja, assim como a do monaquismo, está na nossa conversão, pessoal e comunitária.

Francisco Catão

18 de junho de 2018 | Teologia | Comentários desativados em Os monges e a comunidade cristã nascida em Pentecostes
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