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O sinal da Cruz, um sinal negligenciado

Certa vez espalhou-se a notícia do naufrágio do capi­tão Walker. A leitura do relato nos jornais foi dolorosa porque várias vítimas eram conhecidas nossas. O navio esbarrou em um rochedo, abrindo uma fenda no casco e, apesar dos esforços dos marinheiros, foi impossível consertar o rombo. Em menos de uma hora tudo ficou inundado e, por fim, o navio afundou.

Na tentativa de tornar a embarcação menos pesada, ati­raram ao mar as mercadorias. Depois das mercadorias, as provisões de guerra; depois destas, os móveis e uma parte dos cabos e velas. Depois vieram os alimentos com ex­ceção de dois ou três galões de água e alguns pacotes de biscoito. Tudo inútil. O navio continuava afundando e o fim era iminente. Como último recurso, Walker ordenou lançar os barcos ao mar e, com a correria e a precipitação, sobreveio a morte da maior parte dos passageiros.

 

Esta é mais ou menos a história de todos os naufrágios. Os infelizes que se encontram nessa situação extrema to­mam a atitude perfeitamente compreensível de jogar ao mar tudo o que pode ser jogado. A vida, afinal de contas, é mais importante.

 

O mundo atual, que ainda se chama cristão, lembra muito um navio prestes a naufragar. As tempestades fu­riosas que nunca cessaram de se abater sobre a Igreja têm deixado grandes estragos. Pelas diversas fissuras entra­ram as águas das doutrinas, costumes, usos e tendências anticristãs. O problema não é o navio, que é imperecível, mas os passageiros que podem morrer. O que tem ocor­rido? Nem é o caso de se falar do mundo abertamente pagão, pois este já naufragou. Refiro-me ao mundo que ainda afirma ser cristão.

 

O que tem feito o mundo a cada dia com as provisões de seu navio, suas mercadorias, móveis, material de nave­gação com os quais a Igreja provisionou o seu navio para garantir que ele, apesar dos rochedos, ventos e tempesta­des alcançasse com segurança o porto da eternidade? Ele jogou tudo ou quase tudo ao mar.

 

Onde está a oração em família? Foi jogada ao mar. E as leituras piedosas, as meditações? Também jogadas ao mar. A oração à hora das refeições? Ao mar. A frequên­cia ao Santo Sacrifício da Missa, o uso do escapulário, a oração do terço? Jogados fora. A santificação do domingo incluindo instrução religiosa, frequência à Missa, visita aos pobres, aflitos e doentes? Tudo jogado ao mar. A re­cepção regular dos sacramentos, a observância às leis do jejum e da abstinência? Descartados. O espírito de sim­plicidade, de modéstia nas casas e na alimentação; a pre­sença do crucifixo, das santas imagens, da água benta nas casas? Ao mar… tudo jogado ao mar…

 

E o navio continua afundando. O espírito cristão se en­fraquece, e o espírito do adversário intensifica-se a olhos vistos. Nós nos jogamos nos barcos, ou seja, em religiões que adequam-se a nossa idade, ambições, temperamento, gos­tos e ambiente social.

 

Frequentar espetáculos e bailes; ler tudo o que aparece pela frente, conquistar tudo o que for possível: é em cima dessas coisas que se pretende construir sua salvação. É de impressionar que existam tantos naufrágios? Pobres pas­sageiros dissociados de seu navio, quanto tendes a lamen­tar! Especialmente a nova geração que chega.

 

Entre os costumes católicos lamentavelmente enfraque­cidos no mundo atual, existe um que é o mais nobre de todos, e que desejo salvar do naufrágio a todo custo: é o sinal da Cruz. É chegado o momento de cuidar de sua preserva­ção. Caso contrário, ele terá o mesmo destino de muitas outras práticas tradicionais fruto da solicitude maternal da Igreja e da piedade inteligente dos séculos cristãos.

Quer saber em que estado se encontra o sinal da Cruz, neste mundo que ainda se diz cristão? Basta ficar na por­ta de uma igreja em um domingo qualquer e examinar as pessoas que entram na casa de Deus. Muitas entram e buscam seu lugar na maior distração, sem procurar a pia de água benta (quando as há!) e sem fazer o sinal da Cruz. Outros apenas fazem algo parecido com um sinal da Cruz quando recebem a água benta.

Visto o modo como fazem o sinal da Cruz, nem seria ne­cessário dizer isso. É um movimento de braço e mão irrefletido, apressado, truncado, mecânico, que não se parece com nada e nem possui significado. Se existe uma manei­ra de ver gente fazendo coisa sem sentido basta observar o modo como alguns fazem o sinal da Cruz na igreja…

 

Na multidão de batizados, quantas pessoas poderemos encontrar fazendo o venerável sinal da salvação de ma­neira cuidadosa, regular e piedosa? Ora, se em público e em circunstâncias solenes fazem o sinal da Cruz mal feito ou nem o fazem absolutamente, acredito que também não o façam da maneira correta nas outras situações menos solenes da vida cotidiana. Isto é fato: os cristãos atuais não fazem, ou fazem poucas vezes, ou fazem mal feito o sinal da Cruz. Neste ponto, como em muitos outros, esta­mos na rota contrária à de nossos antepassados, os cris­tãos da Igreja primitiva. Eles faziam o sinal da Cruz; eles o faziam muito bem feito, e o faziam com muita frequên­cia. Tanto no Oriente como no Ocidente, em Jerusalém, Atenas e Roma os homens e as mulheres, os jovens e os anciãos, os ricos e os pobres, os sacerdotes e os simples fiéis, todas as classes sociais observavam religiosamente esse costume tradicional. Nada é mais certo do que isso. Todos os Padres da Igreja, testemunhas oculares, historia­dores, dão prova disso.

 

Em nome de todos eles, temos a declaração de Tertuliano: “Em cada movimento e a cada passo, ao entrar ou ao sair, quando nos vestimos, nos calçamos, nos banhamos, quan­do nos pomos à mesa, quando acendemos as lâmpadas, ao dormir, ao sentar, não importa o que façamos nem onde vamos, marcamos nossa fronte com o sinal da Cruz”.

 

Vejam o que está sendo dito: a todo momento nossos antepassados faziam, de um modo ou de outro, o sinal da Cruz. Eles o faziam não apenas sobre a fronte, mas também sobre os olhos, a boca e o peito conforme atesta Santo Efrém.

 

Caso os primeiros cristãos viessem nos visitar em nossas praças públicas e em nossas casas, e fizessem o que faziam há 20 séculos, talvez os tomaríamos por esquisitoides. Tanto é verdade que, no que tange ao sinal da Cruz, fazemos o oposto do que eles faziam. Ou eles estavam errados então, e nós certos agora, ou eles estavam certos então, e nós errados agora. É uma coisa ou outra, não há meio termo. Qual das duas é a verdadeira?

Eis uma questão de importância fundamental.

 

Monsenhor Jean-Joseph Gaume

 

 

3 de julho de 2017 | Fique Sabendo, Sem categoria | Comentários desativados em O sinal da Cruz, um sinal negligenciado
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