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O Sinal da Cruz e a Igreja

 

 

Sem nenhuma exceção, os primeiros cristãos traçavam sobre si o sinal da Cruz. Eles o faziam com a máxima fre­quência e recomendavam que todos o fizessem.

 

 

“Fazer o sinal da Cruz – diz São Basílio Magno – sobre quem colocou sua esperança em Jesus Cristo é a primeira coisa que se faz entre nós e é a mais conhecida”.

São João Crisóstomo afirma: “A cruz é onipresente: nas casas dos príncipes e dos súditos, entre as mulheres e os homens, entre as virgens e as desposadas, entre os escra­vos e os homens livres, e todos a traçam sobre a parte mais nobre do corpo: a fronte.

Jamais transponhais o limiar de vossas casas sem antes fazer o sinal da Cruz dizendo: Renuncio ao demônio e me entrego a Jesus Cristo”(São João Crisóstomo).

Outro diz: “Devemos fazer o sinal da Cruz em todas as situações”(Santo Ambrósio).

São Gaudêncio afirma: “Que o sinal da Cruz seja tra­çado constantemente sobre o coração, a boca, a fronte, estando à mesa, ou no banho, ou no leito, na entrada e na saída, na alegria e na tristeza, sentado, de pé, andando, em suma, em todas as nossas ações, façamo-lo sobre nos­so peito e todos os nossos membros, a fim de que todo o nosso corpo esteja revestido por esta armadura invencível dos cristãos”.

Até o último suspiro, confirmando suas palavras com seu exemplo, assistimos a morte dos Pais da Igreja, como o ilustre Crisóstomo, o rei da eloquência, fazendo o sinal da Cruz. Formados nessa escola, os mais nobres cristãos seguem nas mesmas pegadas.

Falando de Santa Paula, diz São Jerônimo: “Quando ela estava a ponto de entregar a alma e praticamente havia perdido a voz, mantinha o dedo so­bre a boca e, fiel ao costume, traçava o sinal da Cruz sobre os lábios”.

Eu poderia dar incontáveis outros exemplos de fatos que estabelecem o uso constante e frequente do sinal da Cruz, como o fizeram os verdadeiros cristãos de todos os sécu­los e condições, na sociedade como na vida religiosa, no Oriente como no Ocidente. Esta gloriosa tradição, por si só, constitui uma demonstração imponente em favor de nossos antepassados na Igreja primitiva.

Os séculos passam e, com eles, mudam os homens. Leis, hábitos, modas, linguajar, modos de ver e pensar, tudo muda. Apenas a Igreja não muda. Imutável como a verdade, da qual ela é a Mestra, tudo aquilo que ela ensinava ou que fazia no passado ela o ensina e faz hoje, e o ensinará e fará no futuro.

Qual é o pensamento da Igreja em relação ao sinal da Cruz? Este é um ponto sobre o qual se manifesta o esplen­dor de sua divina imutabilidade. Há 21 séculos podemos dizer que a Igreja tem vivido do sinal da Cruz. Não há um único momento em que ela não o empregue. Ela inicia, re­aliza e conclui todas as coisas com o sinal da Cruz. Dentre todos os seus costumes, o sinal da Cruz é o principal, o mais comum e familiar. Ele está no âmago dos exorcis­mos, orações e bênçãos.

 

 

Aquilo que ela faz hoje diante de nós em nossas basí­licas, ela o fazia diante de nossos antecessores nas cata­cumbas. “Sem o sinal da Cruz, nada se faz entre nós de legítimo, nada se considera perfeito nem santo”.

Assim como seu divino Fundador, a Igreja exerce poder sobre as criaturas e sobre os seres humanos. Ele (seu poder) é tão vas­to quanto o céu e a terra. Como ele se exerce? Pelo sinal da Cruz. Tudo o que ela destina a seu uso: a água, o sal, o pão, o vinho, o fogo, a pedra, a madeira, o óleo, o bálsa­mo, o linho, a seda, o bronze, os metais preciosos, tudo o que pertence a seus filhos: suas casas, campos, rebanhos, instrumentos de trabalho, as produções de sua indústria, de tudo ela toma posse pelo sinal da Cruz.

Quando ela quer preparar para o Deus do céu uma ha­bitação sobre a terra, a primeira atitude para consagrar o terreno é o sinal da Cruz. “Que ninguém”, dizem os concílios, “ouse construir uma igreja sem que o bispo vi­site os terrenos e trace o sinal da Cruz para expulsar os demônios”.

 

O sinal da Cruz é a sua primeira ação para benzer os materiais do templo. Esse sinal é gravado 20 vezes sobre o pavimento, nos pilares, sobre o altar. Para que todos os vejam, ele é fundido em ferro e exposto no alto das torres.

Quando seus filhos vierem à casa de Deus, o que devem fazer ao adentrarem o recinto? O sinal da Cruz. Como os sacerdotes e bispos iniciam as orações e os ofícios? Com o sinal da Cruz.

“Quando, no começo de cada ofício, fazemos o sinal da Cruz acompanhado da oração ‘Vinde, ó Deus, em meu auxílio’, é como se disséssemos, conforme atesta um an­tigo liturgista: ‘Senhor, vossa Cruz é nosso auxílio; com a mão faz-se o sinal, com a língua a oração. O demônio é o chefe supremo de todos os inimigos de nossa salvação, ele governa o mundo, adula a carne para nos anular. Se por vossa Cruz, Senhor, vós nos dais auxílio, o demônio e todos os nossos inimigos serão postos em fuga’”.

Contemple, sobretudo, procedimento da Igreja para com o homem, templo vivo da Santíssima Trindade. A primeira coisa que ela faz sobre ele, ao sair do ventre de sua mãe, é o sinal da Cruz; a última, quando ele é colocado nas en­tranhas da terra, é novamente o sinal da Cruz. Do começo ao fim, sua ternura o marca com o sinal da Cruz.

No intervalo de vida que separa o berço e o túmulo, quantas vezes o sinal da Cruz é traçado sobre o homem! No batismo, ele se torna filho de Deus e se faz o sinal da Cruz. Na crisma, sacramento pelo qual ele se torna soldado da virtude, mais uma vez o sinal da Cruz. Na Eucaristia, onde ele se alimenta do pão dos anjos, o sinal da Cruz novamente.

No sacramento da penitência, pelo qual ele recupera a vida divina, faz-se o sinal da Cruz; na extrema-unção, pelo qual ele é fortificado para o último combate, mais uma vez o sinal da Cruz; pelos sacramentos da ordem e do matrimônio, pelos quais ele se associa à paternidade do próprio Deus, o sinal da Cruz. Sempre e por todo lado, hoje como no passado, no Oriente como no Ocidente, é o sinal da Cruz traçado sobre o homem.

E isso ainda não é tudo. Veja o que faz a Igreja quando ela, na pessoa do sacerdote, sobe ao altar. Armada com o poder infinito do qual foi dotada, ela vem falar não mais à criatura, mas ao Criador; não mais ao homem, mas a Deus. Ao comando da sua voz o Céu se abre, o Verbo se encarna e renova todos os mistérios de sua vida, de sua morte e ressurreição.

Eis um ato que deve ser cumprido com a mais rigorosa gravidade, um ato no qual deve ser evitado com o maior cuidado tudo o que lhe é estranho ou supérfluo.

Ora, no decorrer da ação sagrada, a Igreja, mais do que nunca, multiplica o sinal da Cruz; ela se envolve com o sinal da Cruz; ela caminha através do sinal da Cruz. Ela o repete com tanta frequência que poderia parecer um exa­gero se não fosse profundamente misterioso. Na missa la­tina tradicional, o sacerdote traça o sinal da Cruz cerca de 48 vezes. Ou melhor ainda: durante o augusto sacrifício, o sacerdote torna-se um sinal da Cruz vivo.

E a Igreja Católica, a solene mestra das nações, a grande mestra da verdade, jamais poderia repetir com tanta fre­quência, em seu ato mais solene, um sinal inútil, supersti­cioso ou de importância menor. A conduta da Igreja e dos verdadeiros cristãos de todos os séculos é, portanto, uma prova vitoriosa em favor de nossos maiores na fé.

 

Monsenhor Jean-Joseph Gaume

14 de outubro de 2017 | Sem categoria | Comentários desativados em O Sinal da Cruz e a Igreja
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