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O amor, passaporte para o Céu

Existe algo que é inevitável em nossa vida, algo pelo qual todos passamos já ou ainda passaremos: a morte de alguém que amamos. Falar sobre a morte ou apenas pensar nela não é um assunto que nos deixa à vontade, não é mesmo? Evitamos falar e mesmo pensar sobre ela e, quando pensamos, o temor e a angústia se apossam do nosso coração e pensamos que jamais estaremos preparados para perder alguém… Parece mesmo assustador! No entanto, um dia, cedo ou tarde, este fato inevitável chega em nossa vida. Porém, não sozinho. Acompanhando, vem a graça de Deus para suportarmos o peso da dor e, assim, passarmos por ela.

 

Talvez ao começar a ler este texto, você esteja pensando no porquê de se falar sobre a morte ou tenha já se perguntado, com um certo frio na barriga: “Será que Deus quer me preparar para a morte de alguém?” Não. Não é isso. Mas, certamente é Deus querendo preparar você para que viva melhor consigo mesmo e com aqueles que você ama!

 

Neste mês de Novembro, a Igreja celebra a solenidade de Todos os Santos. Além de ser uma ocasião para glorificarmos e honrarmos todos os santos do Céu com nossas orações, súplicas e ações de graças, é também uma ocasião de nos lembrarmos que o Céu é o nosso destino, e que devemos, como os santos, viver de tal modo que lá possamos chegar. E para isso podemos contar com a intercessão de todos eles… Diz São Bernardo: “Contudo, para que nos seja lícito esperar e aspirar a tão grande felicidade, cumpre-nos desejar com muito empenho a intercessão dos santos. Assim, aquilo que não podemos por nós mesmos, seja-nos dado por sua intercessão.”

 

Após essa solenidade, no dia seguinte, a Igreja comemora Todos os Fiéis Defuntos, que chamamos também de “Finados”, em que rezamos por todos aqueles que já partiram desta vida, para que acabem de se purificar dos resquícios do pecado para, do Purgatório, poderem ir para o Céu e ver Deus face a face. Deus quer que rezemos pelos nossos irmãos falecidos como nós rezamos pelas pessoas vivas da terra. Pois, afinal, Ele, que nos quis unidos na terra, não permite que a morte interrompa a comunhão que Ele estabeleceu entre nós.

 

São duas datas que nos fazem aproximar desta realidade tão ameaçadora, que é a morte.  Já dizia os antigos monges – conta-nos a tradição monástica – que devemos ter sempre a morte diante dos olhos, já que isso, por mais contraditório que possa parecer, nos faz viver melhor e eleva os nossos olhos para o destino final de nossas vidas: o Céu, que é a nossa Pátria definitiva para a qual temos que caminhar…

 

Ter a morte diante dos olhos nos ajuda a tocar nos verdadeiros valores desta vida, uma vez que nos deparamos com a transitoriedade da vida e do mundo. Se no Céu está a nossa Pátria e é para lá que devemos caminhar, logo nos vêm à mente as implicações desta verdade para o hoje da nossa vida. Ora, se a vida não termina aqui e é o Céu que me aguarda, o que tenho feito para conquistá-lo?

 

Por isso, a Igreja nos oferece os santos, homens e mulheres que deixaram para nós seu testemunho de vida e exemplo para que possamos imitá-los e irmos em busca do “tesouro imperecível, que a traça nem a ferrugem corroem, e nem os ladrões roubam” (Mt 6,20). Contemplando suas vidas, sentimos crescer em nós o gosto e o desejo pelas coisas do Céu.

 

Falar da morte é falar da vida. Pensar na morte, seja na própria ou na de quem amamos, nos faz refletir na maneira que estamos vivendo e na relação que temos com aqueles que são importantes para nós… É certo que um dia tudo acaba, pois a vida passa e dela só restará o amor que vivemos e o bem que praticamos, o resto é tão somente ilusão. E ao comparecermos diante de Deus, diz São João da Cruz que seremos julgados pelo amor que vivemos ou não.

 

Esse é o segredo! O segredo para não sermos apanhados de surpresa quando a morte bater em nossa porta ou na de quem amamos, é AMAR! Se você ama verdadeiramente as pessoas que o(a) cercam, que arrependimento terá ou culpa sentirá quando vier a perdê-las? Nesta hora, o amor vivido e partilhado é que consola o coração e o protege do remorso e da culpa, emoções penosas que corroem a pessoa por dentro e a deixam na amargura e tristeza…   

Perder alguém que amamos nos permite tocar no valor e na importância que este tem para nós. Então, para que esperarmos este triste momento para reconhecermos o significado que cada pessoa tem para nós? Reconheça hoje o que cada uma representa em sua vida. Abra seus olhos para perceber o valor e a importância, bem como as qualidades e virtudes daqueles que convivem com você ou que, de alguma maneira, fazem parte de sua vida… Não fique mais a olhar para os seus defeitos e fraquezas se, na verdade, todos os temos, não é? Aceite cada um como é, perdoe seus erros e valorize todas as pessoas pelo amor que você pode ofertar a elas. Depois que perdemos alguém, os seus defeitos, fraquezas, erros, se tornam tão irrisórios, tão insignificantes!

 

Assim sendo, trate a todos com carinho. Tente ser mais paciente, compreensivo, atencioso(a), e por que não mais educado(a)? Viva com generosidade a regra de ouro do Evangelho: “Faça pelos outros tudo o que gostaria que fizessem por você” (Mt 7,12). Ame de modo desinteressado, gratuito, sem esperar retorno. Mesmo que este não venha, não se canse de amar e fazer o bem, uma vez que “há mais felicidade em dar do que em receber” (At 20,35).

 

Pense que se você está lendo estas linhas agora, é porque Deus está falando para você! Temos a péssima mania de culpar os outros pelo que, devido a nossa covardia, não fazemos. Justificamos nossas falhas nas falhas dos outros, e nos fechamos a mudanças porque argumentamos que o outro é que não muda… Será mesmo? Você já experimentou agir diferente? Tente você mudar primeiro, e deixe que o seu amor cure e transforme quem está à sua volta. Não se esqueça: a mudança do outro virá depois da sua!

 

Você já percebeu que nos sentimos mais livres para ofender as pessoas do que para manifestar-lhes nosso amor? Por que, então, deixar o mal em nós imperar e os bloqueios nos vencerem, não é mesmo? Faça hoje a opção de expressar seu amor também em forma de palavras, e aprenda a revelar seus sentimentos… Já que não temos vergonha de ofender, por que então nos sentirmos tão embaraçados ao dizer que amamos?

 

Não espere a morte chegar ou beirar quem você ama para confessar o amor que tem… Faça as pessoas ao seu redor mais felizes hoje, durante a vida, enquanto as tem do seu lado.

 

Então, não perca tempo! Tome a decisão de amar. Posso afirmar-lhe que você será muito mais feliz e as pessoas ao seu lado também… Deixe o amor triunfar em seu coração e reinar no meio em que vive.

 

Se acaso você já sofreu a perda de alguém ou esteja sofrendo neste momento, lembre-se que o Céu nos aguarda. Essa é a nossa esperança. Lá nos encontraremos todos para passarmos juntos a eternidade. Quem Deus já chamou para Si, apenas chegou primeiro que você, e de lá o(a) espera e intercede por você.

 

Sejamos como as virgens prudentes do evangelho e não deixemos o óleo do amor acabar, a fim de que nossas lâmpadas não se apaguem. Para que quando comparecermos à presença de Deus, a porta não nos seja fechada (conf. Mt 25,1-13). Deste modo, estaremos obedecendo a Jesus que nos pediu: “Brilhe a vossa luz diante dos homens para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus!” (Mt 5,15-16). Essa luz é o testemunho do amor que deve brilhar sempre, sem jamais se apagar… Assim, Jesus nos acolherá para a festa no céu e viveremos numa alegria sem fim! Pois “felizes são os que habitam em tua casa!” (Sl 83,5).

 

Portanto, o amor é o nosso ingresso para o céu. E será mesmo uma festa quando chegarmos lá e formos recebidos por aqueles que amamos na terra!

 

Apressemo-nos, com nossas boas obras, ao encontro dos que nos aguardam…

 

“porque o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu” (1Cor 2,9).

Ir. Elaine Maia dos Reis, MT.

31 de outubro de 2017 | Artigos | Comentários desativados em O amor, passaporte para o Céu
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