Maria, mãe da Igreja, e a Trindade – Francisco Catão « Monges da Trindade
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Maria, mãe da Igreja, e a Trindade – Francisco Catão

 

 

Prosseguindo seu intenso trabalho de colocar em prática o Concílio Vaticano II, o Papa Francisco, em 11 de fevereiro último, introduziu no calendário litúrgico a festa de Maria Mãe da Igreja[1], cujo significado remonta ao discurso de encerramento da terceira sessão do Concílio, quando se promulgou a Constituição sobre a natureza da Igreja, como participação da vida da Trindade. Ainda neste ano, dia 21 de maio, primeira vez em que se festejava liturgicamente Maria Mãe da Igreja, o mesmo Papa Francisco lhe explicou o significado[2].

 

 

1 – Maria e a Trindade

Os Evangelhos falam de Maria como a mãe de Jesus, da anunciação ao pé da cruz, passando pela vida em Nazaré, pelo primeiro milagre em Caná e por toda sua vida pública. Sempre que a ela se referem, Maria é a mãe de Jesus. Do ponto de vista místico, portanto, é mãe de todo o Corpo de Cristo, na unidade do Espírito, dado em Pentecostes, o que, aliás, explica a posição da sua festa no ano litúrgico, na segunda-feira, depois do domingo de Pentecostes.

Mãe da Igreja porque serva do Senhor, eis a serva do Senhor! que, cheia de graça, acolheu, pelo Espírito, a Palavra de Deus e deu à luz um filho, chamado Jesus. Desde sempre Maria viveu a plenitude da vida santa. Ao morrer, foi assumida na intimidade da Trindade, velando, junto a Deus, por toda a humanidade, salva por seu filho, Jesus. Junto de Deus, Maria é mãe da Igreja e de toda a humanidade, porque desde sua concepção vive na intimidade da Trindade.

 

Junto de nós, porém, Maria é nossa Mãe, Santa Maria, Nossa Senhora e Rainha do céu, porque, como filha do Pai, mãe do Filho e esposa do Espírito Santo, vivendo, em plenitude, a vida santa a que todos somos chamados, cuida de todos nós, em nossa caminhada para Deus.

Meditando sobre o mistério da salvação, desde os inícios do quinto século, na época dos concílios de Éfeso (431) e de Calcedônia (451), os Pais da Igreja, ao formular o dogma cristológico, reconheceram Maria como Mãe de Deus (Theotokos) e criaram a mais antiga invocação a Maria:

À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita”[3].

Essa oração atravessou toda a história da Igreja e ganhou novo alento nos tempos modernos, com São Luís Maria Grignion de Montfort (†1716). Observe-se que se invoca a “Mãe de Deus” (Dei Genitrix), retomando a grande oração monástica recomendada por João Cassiano[4] (†435), como modelo da oração contínua, que até hoje recitamos no início das horas canônicas: “Vinde, ó Deus, em meu auxílio”.

Na Escritura, em particular no livro dos salmos, dirigimo-nos a Deus antes de tudo invocando seu auxílio. É significativo que a mais antiga oração mariana peça a Maria justamente proteção maternal, como nos salmos se pede a proteção divina.

Na fé, o reconhecimento de que a Mãe de Jesus é Mãe de Deus, cheia de graça, manifesta-se existencialmente pela invocação de sua proteção junto à súplica pelo auxílio divino. Esse dado, da mais antiga tradição cristã, está na base da proclamação dos dogmas marianos modernos, da Imaculada Conceição (1864) e da Assunção de Maria (1950), pois à luz do mistério cristão, na esfera da graça, presidida pela revelação do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Maria foi definitivamente associada à atuação divina de Jesus no Espírito.

Maria da Trindade, vinde em nosso auxílio!

 

2 – Maria e a Igreja

Uma das grandes discussões do Concílio, dizia respeito ao lugar de Maria no conjunto da doutrina da Igreja. Teria Maria um lugar específico, próprio, a Mariologia, entre a Cristologia e a Eclesiologia, ou devia figurar na Eclesiologia, como realização eminente do dom do Espírito oferecido por Deus a toda a humanidade?[5]

A solução, construída aos poucos, na própria aula conciliar, foi a teologicamente mais consistente, de inserir Maria como a expressão eminente, histórica, do que a Igreja é, comunhão de toda a humanidade, na unidade de Deus (cf. LG, 1), “povo unido na própria unidade do Pai do Filho e do Espírito Santo” (LG, 4).

Nasceu assim o capítulo oitavo e último da Constituição Dogmática sobre a Igreja. Esse capítulo começa situando Maria no mistério de Deus e da Igreja, em sintonia com o objetivo do Concílio, de meditar sobre a natureza profunda da Igreja (cf. LG, 52-54). Lembra, segundo a Teologia da época, os dados evangélicos em que se funda a reflexão sobre Maria, que a associam intimamente aos acontecimentos descritos nos Evangelhos (cf. LG, 55-59).

Passa então a considerar a ação de Maria inteiramente subordinada à ação redentora de Jesus (cf. LG, 60-62), o que lhe confere o papel de virgem e mãe, modelo da Igreja (cf. LG, 63-64) e constitui um apelo a que a Igreja viva no seio da Trindade, à imitação de Maria (cf. LG. 65).

Fixa a natureza e o fundamento do culto mariano na Igreja, tirando algumas conclusões sobre suas práticas pastorais (cf. LG, 66-67) e conclui com a visão de Maria na Glória, intercedendo pela união dos cristãos (cf. LG, 68-69).

Interceda por nós, a Mãe de vosso Filho!

 

3 – Maria, esposa e mãe

 

 

Recordamos esse capítulo da Lumen Gentium, não só porque constitui um texto do Magistério, que se baseia na visão espiritual da Igreja, como porque, reconhecendo Maria como Mãe da Igreja e nossa mãe, indica o critério à luz do qual deva ser entendido todo o culto mariano. Deixa clara a forma como o Papa Francisco cumpre o propósito do Concílio, integrando Maria numa teologia que parte dos fatos evangélicos (cf. LG, 60-65), fundamento dos princípios teológicos (cf. LG, 52-59) e raiz de toda teologia[6].

Na homilia da primeira celebração da festa de Maria, Mãe da Igreja, Francisco recorre aos Evangelhos para mostrar o que significa, para a Igreja, reconhecer que tem Maria por mãe:

“Confessando que Maria é Mãe da Igreja, compreendemos a dimensão feminina da Igreja, sem a qual a Igreja perderia sua verdadeira identidade e se tornaria uma espécie de associação beneficente ou um clube de futebol”[7].

Como mãe, continua o Papa Francisco:

“O gesto que caracteriza a Igreja, sua principal virtude, é o cuidado com que a mulher recebe seu filho recém-nascido. Maria, ao dar à luz o seu primogênito, diz o Evangelho, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura. Seu gesto é a imagem da ternura de toda mamãe com seu recém-nascido, para que não se machuque e esteja bem agasalhado. Imagem também da Igreja, que se sente mulher e mãe”[8].

Continua ainda o Papa Francisco:

“Refleti sobre essa grande riqueza da Igreja e nossa. Deixemos que o Espírito Santo nos torne fecundos, a nós e à Igreja, para agirmos como mãe uns dos outros, tratando-nos com ternura, doçura e humildade, certos de que essa é a estrada de Maria”[9].

 

“Ternura, doçura e humildade” é o clima em que vive Maria na proximidade de Jesus e em que nós somos chamados a viver na Igreja, nas nossas comunidades, como “povo em comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo” (LG, 4), é a marca de nossa vida na Trindade. Sua fonte inesgotável é o Amor, a caridade, que é nome de Deus – “Deus é Amor” – que é também o mandamento de Jesus – “amai-vos uns aos outros” – e, em última análise, a realidade mais profunda de Deus, o Espírito Santo, Espírito de Deus.

A reflexão cristã nos ensina que Amor e Dom são nomes próprios do Espírito Santo[10], presente em nossa vida e na história, no modo de agir, no estilo de vida de Jesus – “no Espírito de Jesus”.  Espírito que se refletindo na maternidade de Maria, nos é proposto como princípio de vida de cada um de nós e da Igreja.

Viver como filhos de Maria, no Espírito de Jesus, é responder, de todo coração e totalmente, ao chamado à santidade, viver antes de tudo na “busca de Deus”, para usar a expressão característica da vida monástica[11], a serviço do Reino, pois no coração do monaquismo está a vida no clima de Maria, no Espírito de Jesus.

Mãe de Deus e nossa, rogai por nós!

 

Conclusão

 

Nesse blog, hospedado no site do Mosteiro da Trindade, depois de havermos lido a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, convinha tentar explicitar o ensinamento do Papa Francisco, que vê na maternidade da Virgem Maria imagem da vida a que somos chamados, espiritualmente escondida em Cristo e manifestada na fecundidade do amor de Maria.

Maria respondeu, de maneira total, ao chamado a viver em comunhão com a Trindade, tornando-se modelo do monaquismo no mundo secularizado em que vivemos.

Os monges de hoje, como as primeiras comunidades cristãs,[12] desempenham seu papel de testemunhas da santidade, não só pela austeridade de uma vida despojada de oração e trabalho, mas principalmente pela qualidade cristã de sua vida fraterna, como mulheres e homens dedicados ao serviço dos filhos da Igreja, no clima da vida de Maria.

 

São Paulo, 27 de maio de 2018

Festa da SSma Trindade

[1]Acessível em http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/03/03/0168/00350.html#portD

[2] Cf. Lumen Gentium,4

[3] Sub tuum praesidium confugimus, sancta Dei genitrix; nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus nostris, sed a periculis cunctis libera nos semper, Virgo gloriosa et benedicta.

 

[4] João Cassiano, Conferência 10, 10. em Conferências. Juiz de Fora: Edições  Subiaco, 2006,pg. 89-95

[5] Cf. Afonso Murad, Maria, no Dicionário do Concílio Vaticano II. São Paulo: Paulus, 2015.

[6] Cf. a Constituição Apostólica Veritatis Gaudium, 4

[7] Acessível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/it/cotidie/2018/documents/papa-francesco-cotidie_20180521_lachiesa-donna-e-madre.html

[8] Ib.

[9] Ib.

[10] Cf. Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, 37-38

[11] Cf. Regra monástica, c. 58

[12] Cf. Germain Morin OSB, O ideal monástico e a vida cristã dos primeiros dias. Tradução brasileira de Dom Estevão Bettencourt OSB. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 1951. Original francês de 1912!

 

 

 

 

 

30 de maio de 2018 | Teologia | Comentários desativados em Maria, mãe da Igreja, e a Trindade – Francisco Catão
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