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A Fé e o Medo

 

A realidade da fé nem sempre é bem compreendida, ainda mais na sua relação com o medo. Sendo o medo uma realidade presente na vida de todos os seres humanos, justamente a fé é aquela realidade que deve “entrar no jogo”, a fim de ajudar-nos no enfrentamento do medo nas mais diversas circunstâncias da nossa vida.

Falemos um pouco sobre o medo. O que é o medo? É um estado emocional ou afetivo de insegurança suscitado pela consciência de um perigo iminente, de uma ameaça. Sem dúvidas, você leitor, sabe que o medo tem estreita relação com a insegurança. Ele quase pode ser definido como sendo um “estado de insegurança”: aquela sensação ou sentimento de não estar protegido, seguro. O problema – pense bem! – é que apesar de pensarmos que o medo ou a insegurança são realidades objetivas, ou seja, provenientes de uma circunstância específica, de algo que de fato pode nos ameaçar, isso nem sempre acontece. Muitas vezes é o nosso estado emocional, proveniente de sofrimentos vividos no passado, que nos faz experimentar o que chamamos de “insegurança interior”. Assim, há pessoas que “se sentem” inseguras nas mais diversas situações, pois imaginam-se sem apoio, ameaçadas por algo, receosas de que algum mal possa lhes acontecer. Qual é o motivo real de medo? Pense bem: nem sempre ele existe. Muitas vezes tal motivo é mera projeção da nossa insegurança interior. Vamos dar um exemplo? Uma jovem que se sente angustiada porque seu namorado pode deixá-la. Será que ele pode mesmo deixá-la ou é apenas o medo de que isso aconteça é que faz ela pensar que a possibilidade é real? Assim, devido ao medo de ser abandonada, ela começa a ver, aqui e ali, sinais de que ele pode deixá-la mas, na verdade, tudo pode estar acontecendo apenas dentro dela.

 

Caro leitor, neste ponto da nossa conversa posso lhe dizer outra coisa: o medo ou a insegurança têm muito a ver com a falta de confiança que temos em nós mesmos, em nossas próprias qualidades ou capacidades. Assim – perceba – muitas vezes não somos de fato ameaçados por algo real; é a nossa insegurança interior que nos faz, de certo modo, “imaginarmos” motivos para sentirmos medo. Ah! Nem sempre é fácil distinguirmos “o motivo real do medo” daquilo que nossa mente “imagina” devido às nossas inseguranças interiores. É o que chamam de “ansiedade irracional”: aquele medo que sentimos e que,

se nos perguntarmos de verdade o motivo, ficamos meio perdidos. Pois não tem uma causa objetiva. É um medo que surge dos nossos temores interiores, como uma “antecipação do mal que – talvez! – pode nos acometer no futuro”. De certo modo, imaginamos situações que podem nos ameaçar. É uma projeção – um colocar para fora – dos nossos medos interiores.

O difícil é que o medo gera aflição, inquietação. Ele gera desgaste interior, gera “perda de energia interna”. Sentimo-nos cansados, esgotados. E também triste e, por vezes, desanimados ou angustiados.

Outra coisa quero lhe dizer: o medo tem muito a ver com solidão. Quando nos sentimos sozinhos, sem apoio, sem sustentação, facilmente nos sentimos com medo ou inseguros. Penso que isso nos remeta a alguma situação, na infância, quando nos sentimos enfrentando algo que, naquela idade tão pequena, ainda não tínhamos condições de enfrentar. Assim, no presente, é como um “vai-e-volta”: hoje, quando nos sentimos sozinhos, ficamos inseguros, e quando nos sentimos inseguros, sentimos solidão. A solidão que leva à insegurança e a insegurança que leva à solidão. Esse é um “joguinho” nada gostoso, não é verdade?

Bem, não adianta eu ficar falando e falando, se eu não chegar a soluções, não é mesmo? Eu não poderia lhe mostrar soluções a não ser na fé. Esse é o campo que eu lido melhor. Vamos lá!

Certo dia, Jesus disse aos seus discípulos: “Ei! Vamos atravessar, com a barca, para o outro lado do mar” (Mc 4,35-41). E eles foram. Jesus, certamente cansado devido ao fato de ter ensinado muito e curado diversas pessoas, foi dormir na popa da barca. Mas, de repente, com eles já no meio do mar, começa a soprar um vento impetuoso e a tempestade começa a cair. O texto bíblico diz que a barca estava prestes a afundar. O que eles fizeram? Foram correndo até Jesus, O acordaram e disseram: “Senhor, não te importa que afundemos?”. E o que Jesus fez? Levantou-se e ordenou que o vento e o mar se acalmassem, e tudo ficou calmo. E , depois, disse aos apóstolos: “Por que vocês são tão medrosos? Ainda não têm fé?”. E se perguntaram: “Quem é esse a quem até o vento e o mar obedecem?”

Convido você a observar certos detalhes importantes. Vamos lá? Primeiramente, perceba a pergunta dos apóstolos, quando eles acordaram Jesus: “Senhor, não te importa que afundemos? Que pereçamos?”. Ah! Perceba, caro leitor, o quanto o medo tomou conta do coração deles, isso a tal ponto que duvidaram do amor de Deus. Ora, é como se Jesus não estivesse “nem aí” com eles, indiferente àquilo pelo qual eles estavam passando. Infelizmente, é assim que muitos agem em momentos difíceis: pensam que Deus os abandonou, que Ele está indiferente à situação difícil pela qual eles passam. Não! Não mesmo! Deus NUNCA está indiferente aos nossos sofrimentos. Ele se importa conosco. E mesmo quando passamos por sofrimentos inevitáveis, como a perda de um ente querido, por exemplo, Jesus é aquele que está conosco, sofrendo conosco, assim como Ele mesmo sentiu a perda da morte de São José, seu pai.

Em segundo lugar, pensemos na falta de confiança ou de fé dos apóstolos. Ora, Jesus está na barca! Como eles poderiam se afundar? Imaginem só: Jesus morrendo afogado! Uma loucura! Eles se esqueceram de que Jesus estava ali, com eles, na barca. E você? Você se lembra de que Jesus está “na barca da sua vida”? Aliás, antes de tudo precisamos “chamar Jesus” para que esteja conosco, na barca da nossa vida. E depois, já que chamamos, quando Ele estiver, não temos do que nos preocupar: a barca da nossa vida não vai, não pode afundar, pois Jesus está nela!

 

 

Jesus é aquele que tem todo o poder. Ele tem a autoridade para ordenar que tudo se cale. Às vezes, talvez, permita que labutemos um pouco. Mas, no momento certo Ele manda que tudo se acalme. Fique tranquilo.

Por fim, precisamos ouvir, com o coração aberto, sem resistências, o questionamento – ou o “puxão de orelha” – que Jesus faz aos apóstolos: “Por que vocês são tão medrosos? Ainda não têm fé?”. Ouça isso, caro leitor, dirigido a você: “Por que você é tão medroso? Por que ainda se inquieta tanto? Por que pensa que num piscar de olhos sua vida vai desmoronar? Você ainda não tem fé? Não tem fé em Jesus que está com você, que cuida de você, que ama você e, por isso, NUNCA vai deixar de zelar pela sua vida? Creia! Deus ama você e não pode abandoná-lo”. Essa é a “deliciosa” mensagem que este texto tão eloquente nos dá.

 

Por fim, à pergunta que os apóstolos fizeram, nós temos a resposta: “Quem é esse a quem até o vento e o mar obedecem? Quem é este que tem todo o poder para agir em nossa vida?”. Esse é Jesus, o filho de Deus que tanto nos ama e, por causa desse amor, NUNCA vai nos abandonar, nunca vai deixar a barca da nossa vida afundar. Portanto, não tem importância se você sentir medo. O medo, nós o sentimos mesmo! O importante é você enfrentar as situações, acreditando que quem vai à sua frente é o próprio Deus, a quem tudo obedece.

A todos deixo minha bênção e carinho,

 

Pe. Ernani Maia dos Reis, MT

 

 

8 de junho de 2018 | Artigos | Comentários desativados em A Fé e o Medo
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